terça-feira, 4 de Junho de 2013

Os 8 de... João Nunes

Edição nº18. A iniciativa "Os 8 de..." pretende desafiar as pessoas que trabalham em cinema, não apenas
realizadores, a mostrarem o seu lado cinéfilo e dizerem-nos quais os 8 filmes da sua vida.

João Nunes é um argumentista português que certamente muitos já terão conhecido alguns dos seus trabalhos. Passo a citar alguns em cinema: A Selva (2002), Tiro no Escuro (2005), Julgamento (2007), Assalto ao Santa Maria (2010), O Cônsul de Bordéus (2011) e A Teia de Gelo (2012)

Em vez de escolher os meus oito filmes favoritos, vou apresentar uma lista de oito guiões que são referências incontornáveis para mim. Na realidade poderia fazer duas ou três listas destas e trocá-las sem qualquer problema. Tal como nas listas de melhores filmes, é impossível fazer uma seleção definitiva e permanente dos guiões que mais nos marcaram. Mas estes oito são, sem dúvida, leitura essencial para qualquer estudante de escrita para cinema. Passo a explicar porquê.

Chinatown, guião de Robert Towne, realização de Roman Polanski, 1974
Não é de espantar que grande parte dos guionistas refiram Chinatown como o seu guião favorito. É uma peça de escrita perfeita, em todos os aspectos: caracterização dos personagens, enredo, estrutura, diálogos, subtexto, conflito, surpresas… A cena da grande revelação do final é uma master class de escrita.
Pode encontrar o guião aqui.

Casablanca, guião de Julius J. Epstein, Philip G. Epstein & Howard Koch
Realização de Michael Curtiz, 1942
Casablanca é um guião que tem de ser lido com cautela. Sabe-se que quando as filmagens começaram ainda não estava terminado e foi escrito e reescrito quase diariamente até ao fim das produção, num processo complicado. Por isso não há realmente uma versão definitiva do guião, e a que se encontra na net é uma combinação de várias versões. Mas mantenho-o aqui porque é um estudo perfeito do chamado arco de transformção, o processo evolutivo do protagonista ao longo da nrrativa. E é uma grande estória de amor.
Pode encontrar o guião aqui.

Pulp Fiction, guião e realização de Quentin Tarantino, 1994
Há quem desaconselhe a leitura de Pulp Fiction a quem está a começar a aprender a escrever guiões. Quentin Tarantino quebra - aparentemente - tantas "regras" do guionismo que a sua leitura poderia ser prejudicial aos principiantes. Mas a única regra verdadeira é nunca aborrecer o leitor/espectador e, essa, Tarantino respeita na íntegra. Além disso os diálogos são imperdíveis.
Pode encontrar o guião aqui.

O Apartamento, guião de Billy Wilder & I.A.L. Diamond, realização de Billy Wilder, 1960
Billy Wilder e I.A.L. Diamond formaram uma das melhores parcerias de escrita de todos os tempos, assinando em conjunto uma sucessão de clássicos. O Apartamento é possivelmente o melhor de todos. É também uma estória de transformação que poderia servir de modelo para todas as comédias românticas inteligentes. Tudo é bom neste guião, que deu a Jack Lemmon e Shirley MacLaine os papéis das suas vidas.
Pode encontrar o guião aqui.

Taxi Driver, guião de Paul Schrader, realização de Martin Scorsese, 1976
Taxi Driver é o meu filme favorito e o guião de Paul Schrader contribui muito para isso. É um exemplo de arco de transformação negativo, em que assistimos fascinados ao mergulho do protagonista em regiões cada vez mais sombrias da sua personalidade. É também uma lição de como transportar para o papel o ambiente de um determinado local e época. Pode encontrar o guião aqui.

O Silêncio dos Inocentes, guião de Ted Tally, realização de Jonathan Demme, 1991
O melhor thriller de sempre tem um guião à altura. É interessante comparar a versão que se encontra na net com o filme, porque tem diferenças consideráveis. Incluí-o nesta lista para destacar a importância de criar grandes antagonistas, como forma de explorar as fraquezas e realçar as virtudes dos nossos protagonistas. Pode encontrar o guião aqui.

Os Salteadores da Arca Perdida, guião de Lawrence Kasdan, realização de Steven Spielberg, 1981
O melhor filme de aventuras de todos os tempos, fruto de uma colaboração abençoada entre Spielberg, Lucas e Kasdan. O guião é uma master class de como escrever este tipo de estórias, sempre em crescendo, sem nunca perder o ritmo. Pode ser lido em paralelo com a transcrição das sessões de brainstorming e discussão dos três autores, que são uma visão fascinante do processo criativo.
Pode encontrar o guião aqui.

In Bruges, guião e realização de Martin McDonagh, 2008
In Bruges é um exemplo maravilhoso de interação entre dois personagens fortes. A relação entre Ray e Ken tem todas as nuances possíveis - e mais algumas. Em diferentes partes do filme Ken é mentor, amigo, antagonista e protetor de Ray. Que Martin McDonagh tenha conseguido manter a coerência no meio de todas estas mudanças é um atestado do seu talento. E os diálogos são geniais. Pode encontrar o guião aqui.

Conclusão
Encontrar os oito filmes (escritos) da minha vida foi um processo complicado, mas fascinante. Tanto que vou aproveitá-lo para começar em breve uma nova série de artigos no meu blogue de escrita de guião, desenvolvendo as análises que esbocei acima. Obrigado pelo desafio.

1 comentário:

  1. Gosto de todos menos o Chinatown e o In Bruges. Os guiões de Pulp Fiction, Taxi Driver e The Apartment, então, são do melhor que o cinema já criou.

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